Pavor… sim pavor, não aquele simples medo que dá um friozinho na barriga e depois passa, mas o total pânico, que paralisa nossos pensamentos, cega, nos torna impotentes, para depois negarmos que o sentimos, pois de tanto medo o enterramos fundo em nosso ser e o “esqueçemos”, até que algo acione o gatilho e nos vemos mais uma vez paralizados de puro terror enquanto caminhamos, vamos ao trabalho ou tomamos café. Pareçe brincadeira, pura frescura, mas não é… É horrivel, traiçoeiro, constrangedor até, sentir que simplesmente seu chão sumiu, sua mente entrou em pânico, uma vontade louca de se acabar de chorar, para novamente sacudir a cabeça e parar de pensar novamente no que o atormenta, tentando enterra-lo novamente.

Eu passei por isso, e ainda passo… Meu medo, terror, pavor? É bem simples, deixar de existir como sou agora, que ao morrer eu me perca, não exista mais, pois ainda não fiz metade do que deveria estar fazendo. Bobagem, simples medo de morrer. Mas não é tão simples assim, e admitir isso foi meu primeiro passo para tentar superá-lo. Mas por que tinha esse medo?

Imagine o vazio, o nada, a não existência, parar de pensar como você pensa, parar de ser como você é, e enraize isso bem fundo em sua mente, aí talvez consiga entender parte do que eu passava. Não estou menosprezando aqueles que passam pelo mesmo ou a qualquer outra pessoa, mas era aterrador passar por esses momentos e não fazer idéia do por que aconteciam.

Até o dia em que decidi enfrenta-lo. Foi logo após uma noite de trabalho, na verdade a crise começou no trabalho mesmo, estava converçando com Karine pelo msn, tinha levado o notebook para o trabalho e já estava chegando a hora de voltar para casa, me despedi dela com minha saudação habitual, ela não respondeu a saudação, mas se despediu normalmente. Não sei porque, mas houve um daqueles gatilhos inesperados, o frio intenso agarrou meu estomago o espremendo, meu corpo sacudiu como se estivesse com febre alta e minha mente simplesmente parou, ficou em branco, paralizada. O medo aterrador da morte me invadiu de tal maneira que tive que usar toda minha força de vontade para não agarrar o rosto e me encolher sentada na cadeira. E assim como veio tentei desesperadamente enterra-lo novamente bem fundo no meu inconciente. Tinha conseguido por hora.

Nunca duas horas se arrastaram tanto para passar, esse foi o tempo que levou até chegar em casa, pois desta vez o “monstro” não queria ficar adormecido. Ele queria urrar, morder, trupidiar de meu ser até não sobrar nada de coerente em min, e mesmo assim tive que segurar, sorrir e fingir aos meus colegas que nada acontecia e a minha irmã quando cheguei em casa.

Já não aguentava mais, por que sentia isso e por que não passava, por que tinha tanto medo, não da morte em si, mas de deixar de existir? Fui tomar banho, o desespero me comendo viva por dentro, por estar sentindo esse medo inracional para min. Resolvi encarar o “monstro” de frente, no banho mesmo, na privacidade, onde não me ouviriam ou veriam chorar em desespero, e por sempre me sentir segura embaixo do chuveiro (cada um tem seu esconderijo, esse é o meu, água). Debaixo do chuveiro soltei esse “monstro”, foi horrivel, meu estomago não queria parar no lugar, meu corpo se contraiu todo, ajoelhei no chão completamente apavorada, encolhida, mãos no chão, chamando por Deus, não o deus católico, mas a entidade que criou a tudo, a conciência Universal que esta presente em Tudo. Nesse momento começei a me questionar do por que estar sentindo aquilo, todo aquele desespero, não conseguia nem mesmo chorar, tamanho terror.

Fui me questionando e percebi, não era o medo da morte que eu tinha, mas de deixar de existir como sou agora, de me perder e sobrar o nada dessa minha existência, mas por que isso? Não iria morrer agora, então por que? Aí percebi o motivo, passei quase toda essa vida tentando agradar aos outros para ser aceita e esqueçendo de quem realmente eu sou, desperdiçei tanto tempo, tanta energia com isso que meu inconciente entrou em desespero, e mandava sinais tentando me alertar, até ficar insustentavel. Por sorte tive a louca idéia de tentar descobrir o por que, e quase me perdi nisso também. Sei que não vou deixar de existir, sei que a morte não é o fim, sei que ainda tenho tempo, mas não posso abusar mais disso, não posso mais ficar parada, me “matando” aos poucos para agradar e ser aceita, com medo de ficar sozinha, pois não estou só e nunca estarei. Devo me adiantar, reiciniar o que quase perdi, ou novamente ficarei embaixo do chuveiro, encolhida em desespero, esmagada sem conseguir respirar, sem conseguir chorar pelos erros que eu mesma cometi. Pois ainda sinto vontade de chorar…